Por que Angola? Breve análise
Parte 1: Onde Estamos
Vivemos um momento histórico crucial. A polarização política se radicalizou a níveis inconcebíveis até poucos anos atrás. Ela extrapolou a esfera do debate racional, reduziu-se a uma cacofonia onde ouvimos palavras de ordem e somos incentivados a repeti-las aos gritos, sem refletir muito sobre seu significado e consequências.
A combinação da popularidade das mídias sociais, crise econômica generalizada e do paulatino reconhecimento de minorias antes "invisíveis" - ignoradas e subjugadas pelo status quo - proporcionou uma espécie de renascimento explosivo da extrema-direita. Pautas complexas como imigração ou comércio global são abordadas de maneira simplista em plataformas como o Twitter. Não cabem em 280 caracteres.
No entanto, em momentos de crise, as pessoas anseiam por encontrar algo ou alguém para orientá-las. Keith Jenkins, na sua obra Repensando a História, atenta que a ciência, a religião e as ideologias falharam em apresentar soluções para os desafios atuais. Qual a saída? Um "inimigo" que possa ser responsabilizado. Faz parte da natureza humana. Desconfie de si mesmo e de suas certezas. Em última análise, não se esqueça que ainda somos animais predadores.
O extremismo volta à moda, com força total. Passa por cima de valores arduamente conquistados - difícil de serem mantidos - como tolerância e empatia. O fenômeno é recorrente em todo o mundo. Guerra na Ucrânia? Pense também no Brasil, EUA, Hungria, Itália, Brexit, França, Filipinas, Austrália... fake news fomentam sentimentos maniqueístas (bem contra o mal), o cidadão não se dá conta que está sendo manipulado, quer sentir pertencimento e repete mantras onde respeito é confundido com fraqueza e a violência é legitimada.
Parte 2: Onde queremos chegar?
A urgência que vozes sensatas sejam ouvidas. Isso implica em observarmos o contexto munidos de crítica e conhecimento concreto. Por trás do imigrante africano rotulado como "parasita" ou outra asneira qualquer, execrado pelo europeu (por exemplo), há um ser humano igual a seu detrator, com os mesmos direitos e deveres, que carrega uma história de busca por reconhecimento. Ou antes, por sobrevivência. Isso é óbvio. Ironicamente, o que está na nossa frente com frequência é ignorado. Mas abraçamos teorias sem fundamento. Olhe à sua volta.
O Brasil é o que é, um país cuja riqueza cultural não encontra comparações, graças à contribuição angolana. Assim como as contribuições de diversos povos europeus, inúmeras etnias indígenas e diversas regiões da África. Chegamos ao cerne da questão.
Note: o termo "africano" é uma generalização a ser evitada. Assim como não nos agrada quando um estrangeiro comete erros grosseiros como achar que nossa capital é Buenos Aires, ou que as brasileiras são "fáceis" (!), o angolano(a) e o moçambicano(a) não gostam de ser confundidos. Falam português e habitam o mesmo continente. Contudo, possuem singularidades. Outra obviedade.
Homogeneizar é empobrecer. Agora, faz mais sentido mergulharmos em Angola, um macrocosmo pleno de diversidade, culturas plurais?
É só um começo.
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